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A REFORMA PROTESTANTE

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João Calvino

João Calvino (10 de Julho de 1509 - 27 de Maio de 1564) fundou o Calvinismo, uma forma de

Protestantismo cristão, durante a Reforma Protestante. Nasceu

em Noyon, Picardia, França, com o nome de Jean Cauvin.

A transposição do nome "Cauvin" para o Latim (Calvinus) deu a origem ao

nome "Calvin" pelo qual ele é conhecido. Martinho Lutero escreveu

as suas 95 teses em 1517, quando Calvino tinha 8 anos de idade. Para muitos,

Calvino terá sido para a língua francesa aquilo que Lutero foi para a língua alemã -

uma figura quase paternal. Lutero era dotado de uma retórica mais direta, por vezes

grosseira, enquanto que Calvino tinha um estilo de pensamento mais refinado e

geométrico, quase de filigrana. Citando Bernard Cottret, biógrafo (francês) de Calvino: "Quando

se observa estes dois homens podia-se dizer que cada um deles se insere já num imaginário

nacional: Lutero o defensor das liberdades germânicas, o qual se dirige com palavras

arrojadas aos senhores feudais da nação alemã; Calvino, o filósofo pré-cartesiano, percussor

da língua francesa, de uma severidade clássica, que se identifica pela clareza do estilo".

Calvino foi inicialmente um humanista. Nunca foi ordenado sacerdote.

Depois do seu afastamento da Igreja católica, este intelectual começou a ser visto,

gradualmente, como a voz do movimento protestante, orando em igrejas e acabando

por ser reconhecido por muitos como "padre".

Nyon

Girard Cauvin estabeleceu-se em Noyon em 1481. Foi inicialmente um simples secretário

da chancelaria. Seria, depois, advogado representante do bispado de Nyon; mais tarde,

funcionário relacionado com a cobrança de impostos e, finalmente, o promotor (representante)

do bispado, antes de entrar em conflito com este. Faleceu em 1531 após uma disputa com o

bispado, pela qual foi excomungado. A autorização para o seu funeral seria deveras dificultada

devido a esta querela.

A mãe de Calvino, Jeanne Le Franc, de seu nome de solteira, era filha de um dono de

uma hospedaria em Cambrai, que tinha enriquecido. Jeanne faleceu em 1515, quando João

Calvino tinha apenas 6 anos de idade.

Girard e Jeanne tiveram quatro filhos:

  • Charles, o mais velho, foi padre. Faleceu em 1536.
  • João Calvino.
  • Antoine - Iria mais tarde viver em Genebra, junto do irmão.
  • François - Morreu ainda em tenra idade.

Haveria ainda duas irmãs, que nasceram do segundo casamento de Girard.

Uma chamou-se Maria e iria também viver em Genebra. Da outra irmã sabe-se pouco.

João Calvino nasce a 10 de julho de 1509, nos últimos anos do reinado de Luís XII.

Frequentou inicialmente o "Collège des Capettes" em Nyon, onde adquiriu

conhecimentos básicos de latim.

Em 1 de Janeiro de 1515 o rei Francisco I de França (François, roi des françois),

sucedeu a Luís XII. Inicialmente moderado em matéria de religião, a postura deste rei foi

endurecendo ao longo do seu reinado, terminando na perseguição declarada dos protestantes.

Pela Concordata de Bolonha, assinada no início do seu reinado, o papa Leão X concedia

ao rei da França o direito a nomear os titulares dos rendimentos da igreja. Em contrapartida,

o Papa via reforçados os seus direitos sobre a Igreja em França.

Paris

Em 1521, com 12 anos, João Calvino ganhou o direito a uma "benefice", ou seja, um

rendimento anual que era concedido a elementos e familiares da hierarquia da igreja.

No seu caso, consistia numa determinada quantia anual de cereais pagos por uma

comunidade de La Gésine.

Em 1521 ou 1523 (data incerta) o pai enviou-o para a Paris. Terá provavelmente vivido

inicialmente com o tio Richard, na zona de Sain-Germain-l'Auxerrois. Calvino começa por

frequentar o College de la Marche, onde foi aluno de Maturin Cordier, um grande pedagogo

do tempo. Estabeleceu, aí, amizade com as crianças da família d'Hangest, do bispo de Nyon,

que se assumia, de certa forma, como protector dos Cauvins. Os seus amigos eram Joachin,

Yves e Claude, a quem mais tarde dedicaria o seu comentário a "De Clementia" de Séneca,

um autor conhecido pelo seu estoicismo.

Foi, de seguida, admitido no Collège Montaigu, uma escola de má reputação, conhecida

pela sua rigidez, pelas sovas e má comida. A lista de professores em Montaigu, nesta época,

incluía o espanhol Antonio Coronel e o escocês John Mair (que foi professor

de Inácio de Loyola), mas não há provas definitivas de que eles tenham sido professores de Calvino.

Em fevereiro de 1525, o rei Francisco I foi encarcerado temporariamente em Pavia pelas tropas

do imperador Carlos V. Com a intervenção do papa Clemente VII a favor de Francisco, a

influência papal junto do rei de França aumenta consideravelmente.

Numa bula de 17 de Maio de 1525 dirige-se a Francisco para que tome providências

contra o crescente número de "blasfemos" em França e contra os ataques

a imagens religiosas.

Em 1 de Junho de 1528 teve lugar em Paris o caso da Rue des Roisiers.

Uma figura de madeira situada nessa rua (uma madona) foi decapitada por

desconhecidos. O rei reage de forma veemente, organizando procissões, que

passaram a ser repetidas anualmente. O incidente ainda era lembrado no século XIX.

Orleães

Em 1529, pouco antes de atingir os vinte anos de idade, a vida de Calvino sofreu uma súbita

viragem. Tendo vindo inicialmente para Paris com uma renda anual concedida pela Igreja,

com o fim de estudar Teologia, ficará a saber que o pai mudou de planos em relação ao seu

futuro e quer que ele siga Direito. A "ciência das leis torna normalmente ricos aqueles que

se debatem com ela", referia o seu pai (ele próprio um advogado do bispado), segundo as

próprias palavras de Calvino. Cumpriu a vontade do pai e foi estudar Direito para Orleães, mas

nunca deixou de preferir a teologia. Como disse mais tarde: "Se Deus me deu forças para

que eu cumprisse a vontade de meu pai, determinou ele pela providência oculta que

eu tomasse finalmente um outro caminho" (o da Teologia). Inicialmente Calvino

preparava-se para ser padre, enveredaria pelo estudo do direito, mas Deus trouxe-o

de novo ao caminho da Teologia.

O biógrafo francês de Calvino, Bernard Cottret, escreve: "Direito e leis: Calvino, o teólogo,

é no fim, também, Calvino, o jurista. O seu pensamento fica marcado pela austeridade,

a adstringência e a geometria da lei, pelo seu fascínio ou aspiração a ela. No início

do século XVI assiste-se no Direito a uma verdadeira revolução. A retórica de

Cícero toma a primazia sobre a filosofia medieval, que se sustenta nos seus

silogismos. Com a interpretação de textos jurídicos, Calvino toma contacto pela

primeira vez com a Filologia humanista". O humanismo e o renascimento são,

pois, os movimentos culturais que o vão influenciar em primeiro lugar.

Em Orleães, Calvino foi influenciado pelo seu professor Pierre de l'Estoile. Em 1529,

dirige-se também a Bourges, para assistir a aulas do famoso professor de direito

italiano Andrea Alciati, onde também assiste a aulas do alemão Gräzist Wolmar,

que o entusiasmou pela literatura grega da antiguidade.

Em 1529, Louis de Berquin foi queimado vivo em Paris, numa altura em que o rei,

Francisco, estava fora da cidade.

Em 1531, Calvino, num prefácio ao livro de um amigo, toma partido pelo seu

professor Pierre de l'Estoile num texto que explora a disputa entre este e Andrea Alciati,

talvez por lealdade e nacionalismo. O que prova que o Calvino de 1531 ainda não

é um reformador mas, acima de tudo, um humanista. Neste mesmo ano morre o pai,

Gerard Cauvin. Calvino vai a Bourges, a Orleães e regressa de novo a Paris, onde se

instala em Chaillot.

Em 1532, foi doutorado em Direito em Orleães. O seu primeiro trabalho publicado foi um

comentário sobre o texto do filósofo romano Séneca "De Clementia". Calvino cobre os custos da

publicação do livro com dinheiro do seu próprio bolso. Aos 23 anos era já um

famoso humanista,

seguindo os passos de Erasmo de Roterdão, que também escreveu sobre Séneca nestes

anos. Em "De Clementia" não há da parte de Calvino uma alusão explicitamente religiosa.

É antes uma obra que reflecte o estoicismo de Séneca e a predestinação no

sentido estóico. Séneca escrevera o texto como forma de apelar Nero à moderação e à razão.

Até 1532 não há, como se viu, qualquer indício de que Calvino tenha aderido à nova fé -

nos seus diferentes focos e graus que surgem pela Europa - onde o Luteranismo surge

como um movimento mais moderado e os anabaptistas como uma força mais radical.

A conversão de Calvino ao protestantismo permanece envolta em mistério. Sabe-se

apenas que ela se deu entre 1532 e 1533 (Calvino tem 23 ou 24 anos). Um texto escrito por

Calvino em 1557 como prefácio ao seu comentário sobre os salmos oferece-nos

alguns parcos pormenores:

"Após tomar conhecimento da verdadeira fé e de lhe ter tomado o gosto, apossou-se de mim um

tal zelo e vontade de avançar mais profundamente, de tal modo que apesar de eu não ter

prescindido dos outros estudos, passei a ocupar-me menos com eles. Fiquei estupefacto,

quando antes mesmo do fim do ano, todos aqueles que desejavam conhecer a verdadeira fé

me procuravam e queriam aprender comigo - eu, que ainda estava apenas no início! Pela

minha parte, por natureza algo tímido, sempre preferi o sossego e permanecer discreto, de

modo que comecei a procurar um pequeno refúgio que me permitisse recolher dos Homens.

Mas, pelo contrário, todos os meus refúgios se tornavam em escolas públicas. Em resumo,

apesar de eu sempre ter pretendido viver incógnito, Deus guiou-me por tais caminhos,

onde não  encontrei sossego, até que ele me puxou para a luz forte, contrariando o meu

carácter, e como se costuma dizer, me colocou em jogo.

E, na verdade, deixei a França e dirigi-me para a Alemanha

para que ali pudesse viver em local desconhecido, incógnito, como sempre tinha desejado."

Note-se que a França e Alemanha não existiam no sentido de hoje mas sim em termos de zonas de língua francófona ou alemã.

Entretanto, o papa Clemente VII pressionava o rei de França a reprimir os protestantes

franceses. Em bulas de 30 de Agosto de 1533 e de 10 de Novembro do mesmo ano, o papa

exortava à  "aniquilação da heresia Luterana e de outras seitas que ganham

influência neste reino". Os dois encontram-se, então, nesse mesmo ano,

em Marselha, onde discutem entre outras

coisas a "guerra contra os turcos, lá fora, e a repressão das heresias cá dentro".

O discurso de Nicolas Cop

A 1 de Novembro de 1533, o novo reitor da Universidade de Paris, o humanista Nicolas Cop,

proferiu um discurso de abertura do ano lectivo na Igreja dos Franciscanos, em Paris, frente aos

mais altos representantes das 4 faculdades: Teologia, Direito, Medicina e Artes. O seu discurso

fazia eco de temas facilmente associados à nova teologia da reforma. Nesse discurso,

Nicolas fez, particularmente, o paralelismo entre a perseguição aos primeiros cristãos e a

que ocorria agora, século XVI, na França, e que visava os cristãos protestantes. Argumentava:

Não eram também chamados de heréticos os primeiros seguidores do cristianismo?

O resultado foi a perseguição do próprio Nicolas Cop, que teve de se refugiar em Basileia.

Simultaneamente, João Calvino fogia também de Paris. O seu quarto no Collège de Fortet

é revistado, e seus papéis e correspondência são confiscados. Calvino encontra refúgio em

Angoulême, em casa do seu amigo Du Tillet.

Não foi até hoje esclarecido completamente o que se passou. Encontrou-se, contudo,

em Genebra, um fragmento do discurso de Nicolas Cop, escrito pela mão de Calvino.

O documento original completo encontra-se em Estrasburgo. Foi levantada a tese de que

Calvino poderia, pelo menos, ter participado na elaboração do discurso.

Calvino permanece em Angoulême até Abril de 1534, altura em que se dirige a Nérac,

onde se encontra com Lefèvre d'Étaples. Regressa depois a Noyon, onde em Maio de

1534 renuncia às suas "benefices". Volta, então, a Paris e a Orleães.

A Psychopannychia

Em 1534, Calvino escreve o seu segundo livro, que será também o primeiro sobre religião.

Chamar-se-á "Psychopannychia" e é relativamente pouco conhecido, em comparação com

as outras obras de Calvino. Calvino faz uma crítica severa aos anabaptistas, que acusa de

serem uma seita tresmalhada. O livro coloca questões teológicas, mais do que oferecer

respostas. Calvino, nos seus 24 anos de idade, está em processo de busca. Defende a

imortalidade da alma. O título completo era: "Psychopannychia - tratado pelo qual se prova

que as almas permanecem vigilantes e vivas uma vez que tenham deixado os corpos, o que

contraria o erro de alguns ignorantes que sustentam que elas dormem até ao último

momento" - o que é, também, um ataque aos anabaptistas. Apesar de escrito em 1534, o

livro seria apenas publicado em 1542.

 

O caso dos cartazes de 1534

Em 18 de Outubro de 1534, a história do protestantismo francês vive um dos seus

momentos fulcrais. Cartazes de 37 por 25 cm que criticam a celebração da missa tal como ela

é feita oficialmente pela Igreja católica são afixados em vários locais. É particularmente atacada

a repetição cerimonial da morte de Cristo, simbólica, no altar. Se o sacrifício já foi

consumado, por que se apoderam os sacerdotes católicos deste ritual simbólico? Os

argumentos teológicos dos protestantes fundamentam-se na Epístola de São Paulo

aos Hebreus. A propaganda protestante pretende transmitir a ideia de que a eucaristia é

uma blasfémia, uma vez que a morte de Cristo não se deixa repetir. Esta demanda foi o

resultado da acção de Antoine Marcourt, Pastor de Neuchâtel, também ele um natural da

Picardia. A situação tornou-se particularmente crítica e descambou numa reacção

brutal por parte da Igreja católica e do estado francês.

Protestantes franceses seriam encarcerados e assassinados. Em Janeiro de 1535, o rei

Francisco I organiza uma procissão macabra pelas ruas de Paris. A procissão pára em 6

locais distintos. Em cada uma das paragens há um pódio onde o rei, os embaixadores e

dignos membros do "parlement" se instalam para assistir à morte pela fogueira de 6

"heréticos" envolvidos no caso dos cartazes do ano anterior.

 

Basileia

Em Janeiro de 1535, Calvino dirige-se a (ou foge para ?) Basileia, cidade onde vive até Março

de 1536. Uma cidade conhecida por ter sido o lar de Erasmo de Roterdão e do reformador Johannes Oekolampad, falecido em 1531, sendo o seu seguidor Oswald Mykonius.

 

A tradução da bíblia de Olivétan

Em 1535 é publicada a primeira bíblia escrita por um protestante, em francês. Tratava-se de

uma tradução directa do Hebraico (o antigo testamento) e do Grego (o novo testamento) -

línguas originais das escrituras - e não das versões então em uso, em latim. Algo totalmente

natural no século do humanismo e de Erasmo de Roterdão. O autor é Olivétan,

aliás Pierre Robert (1506-1538), primo de João Calvino e proveniente também de Noyon.

Foi publicada em Neuchâtel por Pierre de Vingle. Apesar de Pierre Robert ter

demonstrado um bom conhecimento de Hebraico e Grego, o seu estilo de escrita foi

considerado de difícil compreensão, além de uma certa falta de fluidez discursiva. O texto seria

revisto (com a colaboração de Calvino) e publicado novamente em 1546.

 

 

Institutio religionis Christianae

Em Março de 1536 é publicada em Basileia a primeira edição de "Institutio religionis

Christianae". No prefácio menciona a sua estadia em Basileia, "enquanto na França são

queimados na fogueira crentes e pessoas santas". Fala de santos mártires. Dirige-se no

livro ao Rei Francisco I, que procura convencer das boas intenções da reforma. Ao mesmo

tempo, a sua teologia começa a adquirir contornos mais marcados e mais autónomos em

relação ao Luteranismo. Uma tendência que se fortalecerá no futuro. Critica a vida dos

mosteiros, que compara a bordéis. Calvino pretende não só a reforma da Igreja mas de

todos os indivíduos. A institutio é "a organização da sociedade daqueles que

acreditam em Jesus Cristo".

Em Março de 1536, Calvino viaja até Ferrara na companhia de Louis Du Tillet.

Calvino esperava um acolhimento aberto às ideias protestantes na sua estadia em Ferrara.

Enganava-se. Teria de interromper a visita logo em Abril. Foi então até Paris. Mas Calvino não

tem futuro em França. Numa carta ao amigo Nicolas Duchemin, compara a sua sitação com a

dos judeus no Egipto. A França era o seu Egipto. Queixa-se na mesma carta dos rituais

da missa, considerando-os idólatras. Calvino sai definitivamente da França em 1536,

procurando terras politicamente independentes da França e de espíritos mais abertos

para a reforma. Dirige-se, então, para cidades dos territórios que hoje constituem a Suíça.

 

A reforma em Genebra

Genebra é nesta altura já uma cidade de espíritos progressivos e abertos para

a reforma protestante. Politicamente, a cidade está desde 1285 sob vassalagem aos condes

de Sabóia ou à casa episcopal (ao bispo de Genebra), quase sempre ocupada por um bispo

também da casa de Sabóia desde que o papa Félix V (Amadeu VIII de Sabóia) se

autoneomeou bispo da cidade. Na prática, no entanto, Genebra é quase uma cidade-estado,

uma república que desde cedo se emancipou na conquista da sua liberdade municipal.

Em 1522 inicia-se um conflito entre os pejorativamente chamados "mamelucos", que

são conservadores e partidários da casa de Sabóia e os "confederados" (alemão:

Eidgenossen; francês: Eidguenot) de onde possivelmente se formará a palavra

Huguenotes (francês: huguenot). Estes últimos opõem-se a Sabóia. Em 1524, Karl III,

Duque de Savóia, tinha ocupado militarmente Genebra. Porém, em 1526, Genebra decide-se

pela união com Berna e Friburgo, iniciando-se no caminho helvético. A reforma protestante

não terá tido um papel determinante neste processo, segundo Cottret. Mas a partir daqui

começam a reunir-se em Genebra elementos da Reforma. Em 1533 há a primeira

missa protestante de que há conhecimento nesta cidade. São então cunhadas moedas com

a inscrição: "Post tenebras lux" (após a escuridão, a luz).

O ano de 1536 marca uma viragem na cidade de Genebra. Neste ano, a reforma é adoptada

oficialmente pela cidade. Os cléricos da igreja católica são intimados a deixar de celebrar

a missa como o faziam, com o cerimonial papista e seus abusos (idolatria, aos olhos

dos protestantes) e a juntarem-se aos protestantes. Num novo fôlego de zelo religioso,

as raparigas são obrigadas a usar o véu, cobrindo os seus cabelos. Já desde 1532

que se registavam ataques e destruições de imagens religiosas, estátuas, figuras, etc.

A adoração destas figuras era vista pelos protestantes como idolatria. Há um episódio

carismático deste fenómeno: num destes ataques à "idolatria papista", uma multidão

apodera-se de cerca de 50 hóstias de um padre, dando-as a comer a cão. "Se as hóstias

pertencem mesmo ao corpo de Deus, não se irão deixar comer por um cão!" - é argumentado.

Em Junho de 1536, são abolidos em Genebra, por decisão de um conselho, todos os

feriados, excepto os domingos. Todas estas transformações deram-se sem a influência

de Calvino. Aliás, ainda nem sequer aí tinha chegado.

 

Chegada de Calvino a Genebra

1536 é também o ano da chegada de Calvino a Genebra. Calvino tem nessa altura 26 anos.

Após a estadia em Ferrara, na Primavera de 1536, Calvino tinha estado em Paris,

aproveitando-se de um período de relativa calma na perseguição aos protestantes.

Tratou de assuntos pessoais e da família. Em junho faz em Paris uma procuração em nome

do seu irmão. Em Julho de 1536, João Calvino, pretendendo dirigir-se a Estrasburgo,

inicia a viagem, juntamente com o irmão Antoine e a irmã Marie. Em vez de tomar o

caminho mais curto, Calvino faz um desvio pelo sul, evitando a área onde a guerra entre

as forças de Francisco I e Carlos V são uma ameaça. Por coincidência, Calvino chega a

Genebra, onde permaneceu, apesar de ter inicialmente pretendido continuar viagem, o que

foi vivamente desaconselhado pelo reformador Guillaume Farel (na altura de 47 anos de

idade). O caminho para Estrasburgo encontrava-se inseguro por causa da guerra.

A Genebra que Calvino encontra vive ainda a agitação dos conflitos entre

Mamelucos e Confederados.

João Calvino já tinha viajado até Estrasburgo durante as guerras otomanas, e passado

através dos cantões da Suíça. Aquando da sua estadia em Genebra, Guillaume Farel pediu

ajuda a Calvino na sua causa pela igreja. Calvino escreveu sobre este pedido: "senti como

se Deus no céu tivesse colocado a sua poderosa mão sobre mim para barrar-me o

caminho"". 18 meses depois, as mudanças de Calvino e Farel levariam à expulsão de ambos.

A disputa teológica de Lausanne

Entre 1 e 8 de Outubro de 1536, tem lugar na Catedral de Notre-Dame em Lausanne uma

disputa teológica entre protestantes e católicos, na qual Calvino e Farel vão participar.

Este tipo de conferências de disputa tem por modelo os debates que Ulrich Zwingli tinha

organizado em Zurique (1523) e Berna (1528). Do lado católico encontra-se Pierre Caroli, que

iria acusar, em Berna, Calvino e Farel de heresia. Calvino é também acusado de arianismo.

A saída atribulada de Genebra

A 16 de Janeiro de 1537, as autoridades da cidade de Genebra aprovam o documento

escrito pelo líder protestante Farell, que se destina a servir de confissão de fé e orientação

para todos os habitantes de Genebra. Calvino faz também algumas sugestões, parte das

quais são rejeitadas. Cerca de vinte artigos dispõem, entre outras coisas, que os idolatras,

querulantes, assassinos, ladrões, bêbados (entre outros) sejam futuramente excomungados.

As lojas devem fechar ao domingo, assim que soem os sinos da missa.

Estas disposições, apesar de aceites pelas autoridades vão criar atritos com Farell e Calvino.

O estigma da excomunhão é extremamente discriminador e destruidor de relações

sociais no século XVI.

Em Março, os líderes anabaptistas de origem holandesa Hermann de Gerbihan e

Benoît d'Anglen são expulsos de Genebra, juntamente com os seus seguidores.

Em Abril de 1537, por sugestão de Calvino, é constituido um "syndic" (síndico) que tem por

objectivo ir de casa em casa e inquirir sobre a confissão dos moradores. A acção é contestada.

Alguns moradores recusam-se a pronunciar-se sobre a sua fé.

Em junho de 1537 as autoridades de Genebra decidem que o Domingo é o único dia feriado.

Futuramente nenhum outro feriado será considerado.

30 de Outubro é definido como o prazo para todos os moradores de Genebra se pronunciarem

quanto à sua religião. Aqueles que não reconhecem os decretos de Farell são obrigados a

deixar a cidade em 12 de Novembro.

Após esta data, a situação complica-se para Farell e Calvino. Particularmente provocante

é o facto de um estrangeiro (francês), como Calvino, decidir sobre a excomunhão e expulsão

de habitantes naturais de Genebra. As autoridades, perante estes protestos, passam a ser

mais críticas para com os líderes protestantes.

A 3 de Fevereiro de 1538 são eleitos para as autoridades da cidade de Genebra 4 pessoas

que são inimigos de Calvino e dos protestantes. Em Março, estas novas autoridades proíbem

Calvino e Farell de se pronunciarem sobre assuntos não religiosos.

Calvino e Farell negam-se a celebrar a comunhão de acordo com a tradição de Berna.

São proibidos de celebrar a missa. No entanto, no Domingo seguinte, 21 de Abril de 1538,

Farell e Calvino celebram a missa como habitualmente, Farell na Igreja de Saint-Gervais e

Calvino na de Saint-Pierre. As autoridades dar-lhes-ão três dias para saírem da cidade.

 

Estrasburgo

Em 1538, Farell irá refugiar-se em Neuchâtel. Calvino dirige-se a Estrasburgo, após ter

inicialmente pretendido ir para Basileia. Estrasburgo era na altura parte da zona de língua

alemã, mas a proximidade da fronteira com a França significava que ali se tinha desenvolvido

uma comunidade de exilados franceses. Tal como em Genebra Farell reconhecera o

potencial de Calvino, em Estrasburgo Martin Bucer será o protector de Calvino. Durante

três anos Calvino dirigiu em Estrasburgo uma igreja de protestantes franceses,

a convite de Bucer.

Segundo o biógrafo Courvoisier, Estrasburgo é a cidade onde Calvino se torna verdadeiramente

Calvino. O seu sistema de pensamento é aqui consubstanciado em algo de mais

marcadamente original. A sua obra Institutio é aqui re-editada (1539).

É agora três vezes maior do que a primeira edição.

Em Outubro de 1539, Pierre Caroli chega a Estrasburgo, onde permanece pouco tempo.

Caroli e Calvino, inimigos desde há anos, têm uma disputa. Caroli está agora algures entre

o catolicismo e o protestantismo. Ele acusa Calvino de o ter confundido na sua fé.

Calvino sofre uma crise nervosa.

Neste Outono de 1539, Calvino escreve também um comentário à carta de Paulo aos

Romanos. Este tema é particularmente querido do protestantismo, porque ali se encontra

a justificação através da fé como a base de sustentação do movimento protestante, pois

somente a fé salva e justifica. A igreja é por este prisma mais uma comunidade de crentes

do que um enquadramento jurídico. Os sacramentos só recebem o seu sentido através da fé.

Sem fé não têm qualquer efeito. Já Lutero tinha destacado a carta de Paulo aos romanos como o cerne do Novo Testamento e o mais alto do evangelho.

Em Estrasburgo, Calvino casa-se em Agosto de 1540 com a viúva Idelette de Bure, que

tinha sido previamente adepta do anabaptismo. Traz duas crianças do seu prévio casamento.

Calvino tem 31 anos de idade. A cerimónia do casamento foi dirigida por Guillaume Farel.

Em 1541 a peste negra (ou peste bubónica) recrudesce em Estrasburgo.

Idelette e as duas crianças procuram abrigo em casa de um irmão dela, nas redondezas.

 

Regresso a Genebra

Após a expulsão de Calvino, Genebra tinha adoptado os ritos de Berna. O natal, ascensão de

Cristo e outras festividades cristãs voltaram a ser praticadas. Mas os católicos e os

anabaptistas continuavam a ser perseguidos e "convidados" a deixar a cidade. A 18 de Março

de 1539 o jogo tinha sido proibido em Genebra. Pedintes e vagabundos expulsos da cidade.

A ausência de Calvino não tinha significado qualquer laxismo na moral estricta imposta na cidade.

As relações de Genebra com Berna permanecem tensas. Entretanto, os líderes que se

opunham a Calvino (os chamados "artichoques") começam a perder influência. São acusados

de simpatia por Berna. Jean Philip, um de seus líderes, é torturado e decapitado em 1540.

Os oponentes, favoráveis a Calvino, chamados de "Guillermins" ganham o poder.

Calvino foi convidado em Outubro de 1540 a regressar a Genebra, para reaver o seu

posto na igreja, tal como o tivera antes da expulsão. A 13 de Setembro de 1541 Calvino

chega pela segunda vez a Genebra. Instala-se aí definitivamente até ao fim da sua vida, tendo

ali organizado a estructuração da organização de ministérios, de professores, de diáconos,

de acordo com as linhas bíblicas.]

Zelo Religioso Radical

Ainda em 1541, há uma reorganização da igreja de acordo com as propostas de Calvino.

As "Ordonnances de 1541" dispõem a formação de 4 corpos:

  • Pasteurs (pastores, que pregam)
  • Docteurs (ensinam)
  • Anciens (os mais velhos, chamam à ordem aqueles que prevaricam)
  • Diacres (diáconos, ocupam-se dos pobres e doentes) - mendigar é estrictamente proibido

É decidida também a criação de um consistório - composto de elementos da igreja e de

laios, este órgão reúne-se regularmente para julgar comportamentos de pessoas, como

um tribunal, "de acordo com a palavra de Deus", sendo a excomunhão de pessoas a mais

grave sentença que pode decidir.

A eucaristia só é praticada 4 vezes por ano.

Em 1542, Calvino publica em Genebra o seu livro de catecismo: "Catéchisme de

l'Église de Genève, c'est-a-dire, le formulaire d'instruire les enfants en la chrétienté".

A chave do projecto de Calvino passa pela pedagogia. Objectivo é uma

profunda transformação da mentalidade. Cada resquício de superstição, de práticas

de magia, qualquer resto de catolicismo é perseguido como idolatria.

O consistório, do qual Calvino faz parte, ocupa-se desses e de outros casos,

como por exemplo estes:

  • Em 1542, uma mulher chamada Jeanne Petreman não participa da eucaristia; pior ainda, ela diz o pai nosso em língua "romana". Mais, disse que a Virgem Maria era a sua defensora. Diz também que se nega a acreditar noutra fé que não a sua. É excomungada.
  • Em 2 de Setembro de 1546, aparece em Genebra um franciscano que pedia na rua um jantar em nome de Deus e da Virgem Maria. Devemos pressupor que ele obteve o seu jantar mas foi também levado ao consistório, que logo constatou que o "papista" mal conhecia a bíblia e que era inofensivo. Foi expulso da cidade, para o lado da fronteira com os católicos.
  • A 23 de Junho de 1547 comparecem perante o consistório várias mulheres que tinham sido apanhadas a dançar, uma delas a mulher de uma das pessoas no consistório. O caso ganhou os contornos de um escândalo. As mulheres foram condenadas a alguns dias de prisão, apesar dos vários apelos. Na cidade, há cartazes contra Calvino. O autor dos cartazes, Jacques Gruet, é torturado. Confessa a sua autoria e é executado.
  • Em 1548, Louis Le Barbier é interrogado sobre a sua fé. Não é nenhuma. Descobrem-lhe também livros sobre bruxarias e de escórnio. É admoestado perante o consistório mas não será perseguido.

Os nomes de baptismo são regulamentados. Têm de ser nomes que aparecem na Bíblia.

Um decreto de 22 de Novembro de 1546 dispõe que certos nomes são proibidos,

entre os quais:

  • Suaire, Claude, Mama (lembram a idolatria)
  • Baptistes, Juge, Evangéliste
  • Dieu le Fils, Espoir, Emmanuel, Sauveur, Jésus (destinados apenas a nosso senhor)
  • Sépulcre, Croix, Noel, Pâques, Chrétien (nomes estúpidos ou absurdos)

O luxo e a pompa são desprezados. Em setembro de 1558, Nicolas de Gallars, um amigo

de Calvino, inicia uma grande campanha na cidade em desprezo do supérfluo, as modas entre

as mulheres e as más leituras. São queimados vários exemplares do livro "Amadis de Gaula",

na posse de um comerciante. O zelo religioso tomava a forma de censura moral.

Peste Negra em Genebra

Em 1542 há um surto de peste negra em Genebra. No seguimento desta epidemia há

vários casos de feitiçaria e de rituais contra a peste. A peste negra permanecia então

um fenômeno incompreensível. Há vários casos de pretensas bruxarias e feitiçarias, que

terminam muitas vezes em tortura e morte dos suspeitos. Este tipo de práticas já era conhecido

em Genebra antes da reforma. Os protestantes não lidam de forma diferente.

São queimadas bruxas. Supõe-se que estas desgraças são um castigo de Deus.


Em 1542, o filho de Calvino, Jacques, morre pouco depois de nascer em 28 de Julho.

Crescimento demográfico

A partir de 1542 e sobretudo na década de 1550, a cidade de Genebra vai conhecer um

grande crescimento demográfico, com a chegada de refugiados franceses, protestantes

perseguidos em França. Consequentemente, há uma fase de expansão económica

(relojoaria, tecelagem ...) e a língua francesa leva a melhor sobre o dialecto

franco-provençal da região.

Mas também cresce o sentimento xenófobo, em particular aliado com o

ressentimento contra Calvino:

  • Em Janeiro de 1546 é preso Pierre Ameaux, que tinha injuriado publicamente Calvino, esse "picard" que prega uma falsa fé.
  • Um outro senhor Ameaux é preso mais tarde por razões semelhantes. Este senhor tinha boas razões para não gostar do extremo zelo religioso imposto por Calvino, já que o senhor Ameaux era fabricante de cartas de jogo. Foi condenado a percorrer a cidade de uma ponta à outra, descalço, em camisa, com uma vela na mão.
  • A 23 de Setembro de 1547, François Favre comparece perante tribunal por ter afirmado que Calvino se auto-nomeou de bispo de Genebra e os franceses tinham escravizado a sua cidade natal.
  • Mais tarde, em 1548, um senhor chamado Nicole Bromet declara que os franceses deveriam ser todos colocados num barco e enviados pelo rio Reno abaixo.

Em 1547, Henrique II de França sucede a François I. Henrique será um rei menos

reconhecido, em comparação com François, menos carismático, menos entusiasta

pelas artes e ciências, mais introvertido, frio.

Em 29 de Março de 1549 morre Idellete Calvino, após doença. Calvino não voltará a casar.

Dedica-se ainda mais decididamente ao trabalho.

Em 1550 a repressão dos huguenotes em França cresce. É estabelecida

a chambre ardente, para além disso, a censura é fortalecida.

O caso Miguel Servet

Miguel Servet é um homem de cultura, um médico, interessado entre muitas outras coisas

em questões religiosas. E é um livre pensador, que acha que a Trindade não faz qualquer

sentido e que é apenas um sofisma inventado no Primeiro Concílio de Niceia. Será

perseguido pela Igreja Católica por causa das suas teses. É perseguido pela Inquisição

em França. Escapa e dirige-se a Genebra, mas os protestantes mostraram-se não menos

intolerantes para com as suas ideias. Será queimado vivo em Genebra.

A história da ligação entre Servet e Calvino começa já em 1534, ano em que ambos estiveram

em Paris. Esteve nessa altura planeado um encontro mas não chegou a realizar-se.

No entanto eles vão trocar correpondência muitos anos.

O debate vai transformar-se numa azeda discussão. Um dos pontos principais em discussão

é a Trindade. Servet escreve a Calvino, expondo as suas teses. Na discussão diz-lhe que

Calvino devia ler o manuscrito no do seu Livro "Restitutio" e envia-o pelo correio. Em resposta,

Calvino diz-lhe que Servet devia ler o seu "Institutio". Servet lê o Institutio e faz comentários

críticos nas margens do texto sempre que se lhe justifique. Enviou os comentários a Calvino.

Calvino recebeu o manuscrito de Servet. Não lhe respondeu. Nem sequer devolveu o

manuscrito de Restitutio, que Servet lhe pedia que remetesse. Calvino não tinha

aparentemente argumentos. Só teve silêncio. E ódio perante Servet e suas "heresias".

Calvino iria ter a oportunidade de se vingar.

No princípio de Abril de 1553 a Inquisição francesa ganhou misteriosamente a posse de

documentos que compromentem Servet. Entre eles cartas de Servet a Calvino.

Ainda em 5 de Abril, Servet é ouvido pelos inquisidores. A 7 de Abril, porém,

Sevet consegue escapar-se da prisão. Dirigiu-se a Genebra, talvez por

pensar que entre os protestantes estaria a salvo

da Inquisição. Enganou-se. Foi preso pelas autoridades da cidade de Genebra

a 13 de Agosto.

O seu julgamento tornou-se um caso de discussão. Foi pedida a opinião a padres de Berna,

Zurique e outras cidades. A maioria desprezavam Servet. Para eles, a trindade não se discute.

Calvino, ele próprio acusado pelos católicos de arianismo, poderá ter visto aqui a oportunidade

de mostrar a esses mesmos católicos que ele defende a noção da trindade.

E mostrar também que os protestantes também perseguem os "heréticos".

Um herético do lado de lá da fronteira também é um herético dentro da cidade.

A 27 de Outubro de 1553 o "herético" Miguel Servet é queimado vivo em Genebra.

Relacionamento com a reforma inglesa

Por volta de 1550, Calvino escreve ao rei Eduardo VI de Inglaterra, um protestante,

encorajando-o nas suas reformas. O rei Eduardo VI fez acolher protestantes franceses,

perseguidos no país natal. Após o reinado de Eduardo VI (1547-1553) o catolicismo regressa

à Inglaterra sob a liderança de Maria Tudor.

 

Novas dificuldades

Entre 1553 e 1555, há um auge daquilo que foi sempre uma relação tensa entre a igreja,

particularmente o consistório, onde Calvino é uma figura de relevo, e as autoridades

seculares da cidade, eleitas entre os habitantes (ricos) da cidade. Em discussão, como

sempre, a questão de saber se o consistório tem ou não o direito de excomungar pessoas,

algo que se vinha a passar com relativa frequência. As amargas trocas de palavras entre

estes dois polos multiplicam-se. Por um lado o zelo religioso dos Calvinistas, do outro a

autoridade política da cidade. Em Janeiro de 1555 há uma procissão noturna de

pessoas em Genebra, caminhando de vela na mão, ridicularizando Calvino.

Apesar disso, e em parte por causa do peso relativo da população protestante francesa que se

tinha refugiado na cidade, as eleições dos 4 novos "Syndics" de Genebra em Fevereiro de

1555 é favorável aos Calvinistas, que se impõem contra os "Enfants de Genève" sob a liderança

de Perrin. Após as eleições, porém, há desacatos na rua entre as duas partes. Perrin e

outros líderes da revolta são presos. Serão decapitados e esquartejados, e os pedaços dos

cadáveres serão exibidos nas ruas da cidade.

Também a doutrina da Predestinação foi muito atacada nestes anos. Um particular

crítico foi o monge carmelita chamado Hiérome Bolsec, nascido em Paris, que se tinha

estabelecido em Genebra. Ele argumenta que uma vez que Deus é o responsável por tudo

o que se passa, então Deus é também responsável pelos nossos pecados. Calvino

responde que nunca disse isso. As autoridades apoiam Calvino. Em Berna, críticos de

Calvino são expulsos da cidade em 1555.

Em 1555 são erguidas as primeiras igrejas calvinistas em França, nomeadamente

em Paris, Meaux, Angers, Poitiers e Loudun. Nos três anos seguintes surgem as

comunidades de Orléans, Rouen, La Rochelle, Toulouse, Rennes e Lyon.

A 8 de Junho de 1558, Calvino escreve a Antoine de Bourbon, o Rei de Navarre e consorte

de Jeanne d'Albret, exortando-o a seguir na sua vida privada os mesmos valores

ascéticos que os seus súbditos.

Entre 26 e 29 de Maio de 1559 realiza-se em Paris um sínodo nacional protestante.

Cerca de 30 paróquias estão representadas. Vão elaborar um texto de linhas de

orientação, (com a participação de Calvino na sua criação), que se vai chamar

Confession de La Rochelle (foi confirmado nesta cidade em 1571).

Em 1559 Calvino fundou uma escola e um hospital.

Em Abril de 1559 é assinado o pacto de paz entre a França e

a Espanha em Cateau-Cambrésis.

 

Falecimento

A saúde de Calvino começou a vacilar. Ele sofria de enxaquecas, hemorragia pulmonar, gota e

de pedras nos rins. Por vezes foi levado carregado para o púlpito. Calvino também tinha os

seus detractores. Foi ameaçado e abusaram dele. Calvino apreciava passar os seus tempos

livres no lago de Genebra, lendo as escrituras e bebendo vinho tinto. Nos finais de sua

vida disse a seus amigos que estavam preocupados com o seu regime diário de

trabalho: "Qual quê ? Querem que o senhor me encontre ocioso quando ele chegar ?"

João Calvino faleceu em Genebra a 27 de Maio de 1564. Foi enterrado numa sepultura

simples e não marcada, a seu próprio pedido.

 

Publicações de Calvino

  • De Clementia - Obra anotada de Séneca (1532)
  • Psychopannychia (1534)
  • Institutos da Religião Cristã
  • publicado em Latim: 1536
  • publicado em Francês: 1541
  • Catéchisme de l'Église de Genève (1542)
  • Calvino também publicou vários volumes de comentários sobre a Bíblia

Calvinismo

As suas publicações espalharam as suas ideias de uma igreja correctamente reformada,

para muitas partes da Europa. O calvinismo tornou-se a religião maioritária na Escócia

(Ver: John Knox), nos Países Baixos e em partes da Alemanha, tendo sido influente na Hungria

e na Polónia. A maioria dos colonos de certas zonas do novo mundo, como Nova Inglaterra,

eram igualmente calvinistas, incluindo os puritanos e os colonos neerlandeses que se

estabeleceram em Nova Amsterdam (Nova Iorque). A África do Sul foi fundada em grande

parte por colonos neerlandeses (também com franceses e portugueses) calvinistas do

início de século XVII, que ficaram conhecidos como Afrikaners.

Em França, os calvinistas eram chamados de Huguenotes.

A Serra Leoa foi em grande parte colonizada por colonos calvinistas da Nova Escócia.

John Marrant tinha organizado a congregação local sob o auspício da conexão Huntingdon.

Os colonos eram na sua maioria loialistas negros, afro-americanos que tinham combatido

pelos ingleses na guerra da independência americana.

John Knox

O lugar e data de nascimento de John Knox, o reformador escocês, continuam a ser

debatidos, sendo Giffordgate, nas proximidades da cidade de Haddington (a 20 kms

a leste de Edimburgo) o mais provável local de nascimento. Ele teria nescido

em 1513 ou 1514. Faleceu em Edimburgo a 24 de Novembro de 1572.

Juventude

O seu pai foi William Know, de boa família, sem ser especialmente distinta, tinha

combatido na batalha de Flodden e era natural do condado (county) de Haddington.

A sua mãe chamava-se Sinclair. Ele recebeu influências deum espírito liberal, no que toca

à educação, que animaram a igreja escocesa mesmo antes da Reforma Religiosa.

Knox prosseguiu os seus estudos na Universidade de Glasgow, onde o nome "John Knox"

figura entre os matriculados em 1522 ou em St. Andrews, onde se afirma que ele tenha

sido aluno do celebrado John Major, nativo como Knox da região escocesa de East Lothian,

e um dos maiores académicos dos seu tempo.

Major esteve em Glasgow em 1522 e em St. Andrews em 1531. Quanto tempo Know

permaneceu na universidade é incerto. Ele nunca teve aspirações a ser um académico

celebrado como os seus contemporâneos George Buchanan e Alesius. Não há sequer

provas de que se tenha graduado. Parece ser um facto que dominava o latim e cultivava o

estudo, o que está bem atestado com a seu conhecimento dos textos de São Agostinho

e de St. Jerome. Ele aprendeu Grego e Hebreu num período posterior, como indicado

na sua escrita.

Foi ordenado padre numa data anterior a 1540, altura em que o seu estatuto de padre

é mencionado pela primeira vez. Até 1543 Knox ainda se mantinha sob o comando de Roma.

Um documento assinado a 27 de Março desse ano, guardado no castelo de

Tyninghame, prova-o.

Até esta altura, no entanto, ele parece ter dado aulas privadas em vez de ter obrigações

paroquiais. Na altura em que ele assinou oficialmente como padre, ele já teria estado

empregue (um cargo que ocupou por vários anos) como tutor da família de Hugh Douglas em

Longniddry, em East Lothian, educando também o filho de um nobre da vizinhança, John

Cockburn, de Ormiston. Ambos os nobres tinham, tal como como Knox, já neste tempo

uma inclinação positiva em relação às novas doutrinas da igreja.

 

Conversão ao Protestantismo

Knox professou pela primeira vez a fé protestante em finais de 1545. Antes disso já tinha

mostrado sinais de simpatia por essas ideias, sem o ter declarado explicitamente. De

acordo com Thomas Guillaume Calderwood, um nativo de East Lothian, a ordem de

Blackfriars em 1543, foi a primeira a "dar ao Sr. Knox um cheirinho da verdade". A sua

mudança de opinião original tem sido atribuída ao seu estudo de Agostinho e Jerome,

na sua juventude, como referido.

O instrumento imediato da sua conversão foi provavelmente o erudito George Wishart,

que após um período de expulsão, retornou ao seu país natal em 1544, onde morreu

dois anos depois, assassinado (at the stake), vítima última e ilustre do general Beaton.

Entre outros lugares onde ele pregou as doutrinas reformadas, Wishart tinha estado em

East Lothian em Dezembro de 1545 e aí tomou conhecimento com Knox.

Pode-se dizer que o entusiasmo quase juvenil de Knox pela doutrina o terá comovido.

Knox seguia o reformador incansavelmente e constituía o seu guarda-costas, levando

consigo, segundo dizem, um espada que ele estaria disposto a usar para defender

Wishart dos emissários do cardinal que atentassem contra a vida dele.

Na noite em que prederam Wishart, Knox foi impedido de partilhar com ele a captividade,

e assim, muito provavelmente, o mesmo destino.

A seguinte frase de Wishart aos seus amigos é bem conhecida:

"Não, regressem para as vossas crianças. Um é suficiente para o sacrifício"

("Nay, return to your bairns [pupils]. One is sufficient for a sacrifice.")

 

No ministério de St. Andrews

Knox foi então chamado pela primeira vez ao ministério de St. Andrews, que durante toda a

sua vida estaria ligado intimamente â sua carreira. Parece não ter havido qualquer

ordenação regular. Obviamente ele já tinha sido ordenado padre da igreja de Roma.

 

No continente europeu 1554-59

Deixando a Inglaterra pouco depois da morte de Eduardo, Knox drigiu-se para o continente,

uma viagem de que não temos as paragens ou datas em certeza. Em 1554, vivendo

já em Genebra, ele aceitou, em acordo com João Calvino, uma posição na igreja

inglesa de Frankfurt.

 

Reformadores radicais

Thomas Muentzer(ou Müntzer, Münzer) (1489 ou 1490 - 1525) foi um sacerdote do

início da Reforma Protestante.

Ele nasceu na pequena vila de Stolberg nas Montanhas Hartz. Thomas Muentzer estudou

inicialmente no seminário, obtendo o mestrado e completando o Bacculareus biblicus.

Ele dominava o Grego, o Hebreu, e o Latim. Foi ordenado padre em 1513 tendo sido

feito padre de S. Miguel em Braunschweig em Maio de 1514.

Já no ano de 1519, Muentzer tinha aceitado a necessidade de reformas. Ele juntou-se à

Reforma de Martinho Lutero, tendo-se tornado pastor em Zwickau em 1520, com a

recomendação de Lutero. Lutero, no entanto, não foi tão longe como Muentzer, que

cortou relações em 1521 por divergências quanto ao baptismo de crianças,

entre outros assuntos, tendo fundado a sua própria seita religiosa. Por esta razão,

Muentzer é considerado um dos fundadores do Movimento Anabaptista. No entanto,

é questionável se ele próprio alguma vez foi "rebaptizado".


Muentzer foi expulso de Zwickau pelas autoridades em 1521. Em 1522 ele envolveu-se

numa disputa com Lutero. Em 1523, casou-se com uma antiga freira e tornou-se o pastor

de Allstadt, onde pregou até 1524. Em 1524, Muentzer tornou-se um dos líderes das

revoltas que ficaram conhecidas como a Guerra dos Camponeses. Em 1515, ele liderou

um grupo de cerca de 8000 camponeses na Batalha de Frankenhausen, convencido que

Deus iria intervir do seu lado. Muentzer foi capturado e emprisionado. Sob tortura ele

desmentiu e aceitou a fé católica. Thomas Muentzer foi decapitado em 27 de Maio de 1525.

É amplamente reconhecido que Muentzer encorajou os camponeses à revolta contra os ricos

proprietários com base nas suas interpretações da literatura apocalíptica, especialmente a

luta do bem contra o mal tal como encontrada no Livro da Revelação. Aplicando a vitória

da revelação à sua própria situação, ele liderou um grupo de camponeses, cantando e

 

marchando para o seu massacre. A ideia de Muentzer da luta do "bem contra o mal" t

ornou-o um herói simbólico do Estado da República Democrática Alemã (R.D.A.) no

século XX. Pode parecer estranho que um estado ateísta como a RDA tenha estilizado um

teólogo num herói, mas uma das razões para isto, de acordo com Torkel Brekke, é que o

movimento de Muentzer e a Revolta dos Camponeses foram tópicos importantes do

livro "A Guerra dos Camponeses na Alemanha", que é uma obra clássica de Friedrich Engels

em defesa do Materialismo Histórico. Engels descreve Muentzer como um líder revolucionário

que escolheu usar a linguagem bíblica porque esta seria a única que eles entenderiam.

Isto é provavelmente ingênuo. Thomas Muentzer foi um teólogo e os seus pensamentos

construiram-se à volta de ideias bíblicas sobre os verdadeiro servidores de Deus e a batalha

contra o Mal. Ele foi um profeta com muito pouco interesse na revolução e na luta de classes.

Anabaptistas("re-baptizadores", do grego "ana" e "baptizo"; em alemão: Wiedertäufer)

são cristãos da chamada "ala radical" da Reforma Protestante. O termo foi cunhado

por críticos, que se opunham à prática de fazer o baptismo a adultos cujo prévio

baptismo, em criança, era visto pelos Anabaptistas como inválido.


Em "In nomine Dei", José Saramago retrata um conhecido episódio na história do

movimento anabaptista que teve lugar na cidade de Münster (no norte da Alemanha),

onde entre 1532 e 1535 foi estabelecida uma teocracia nas linhas das orientações

desta denominação. Ver a Rebelião de Münster.

Factor tecnológico fundamental: A recente invenção da imprensa

Por volta de 1450-1455 tinha sido impresso pela primeira vez um livro: uma bíblia.

A Biblia Latina, impressa por João Gutenberg, com uma edição de cerca de 150 exemplares,

uma revolução tecnológica, certamente, mas que dá início a uma revolução social.

Até aqui, na Idade Média, os livros eram copiados à mão. A bíblia era um luxo, exclusivo

aos elementos da Igreja. A maioria da população, analfabeta, conhece a Bíblia apenas

de forma lacunar, das visitas à Igreja.

Nos anos seguintes à invenção da imprensa irão surgir milhares de bíblias em

circulação, impressas primeiro em latim, mas também em Grego, e depois em Inglês,

Alemão, Francês, e demais línguas e dialectos. Coloca-se agora com maior acutilância

a questão de descobrir as versões mais "correctas" da Bíblia, a exegese torna-se

uma prática comum. Estamos na era de humanistas como Erasmo de Roterdão.

Torna-se também evidente que há uma problemática intrínseca à tradução de textos.

Como traduzir a palavra grega "presbyterus" ? "Padre", como pretendem os católicos ?

Ou "o mais velho" como pretendem alguns protestantes ? Como interpretar as muitas c

ontradições dos textos bíblicos? Se no passado, quando a Bíblia era um elemento

de decoração dos mosteiros e de Igrejas, estas questões não se colocaram com grande

urgência, agora que as bíblias apareciam nas estantes das famílias educadas e

eram lidas em massa, o tema torna-se mais importante.

 

Factores Demográficos e Económicos Subjacentes

A revolta histórica produz normalmente uma nova forma de pensamento quanto à forma

de organização da sociedade. Assim foi com a Reforma Protestante. No

seguimento do colapso de instituições monásticas e do escolasticismo nos finais

da Idade Média na Europa, acentuado pela "Captividade Babilónica" do papado de Avignon,

o Grande Cisma e o falhanço da conciliação, assistimos no século XVI ao fermentar de

um enorme debate sobre a reforma da religião e dos posteriores valores religiosos

fundamentais. Este debate passou completamente ao lado de Portugal, demasiado

distante do foco onde surgiram estas idéias. A imprensa, inventada na Alemanha

por João Gutenberg, foi importante na divulgação destas idéias. As 95 Teses

de Martinho Lutero foram imediatamente impressas e divulgadas por todas as regiões

de língua alemã, o que contribuiu para a crescente popularidade de Martinho Lutero.

Não menos relevante foi a influência da pressão social exercida pela Contra-Reforma,

na qual os Jesuítas tiveram um papel de liderança. A Inquisição e a censura exercida pela

igreja católica foram igualmente determinantes para evitar que as idéias reformadoras

encontrassem divulgação em Portugal, Espanha ou Itália, países católicos.

Historiadores assumem geralmente que a incapacidade de reformar (grande número de

interesses legítimos, falta de coordenação na coligação dos reformadores) poderia levar

a uma grande revolta ou revolução, uma vez que o sistema deverá ser gradualmente

ajustado ou então desintegrar-se. O falhanço da conciliação levou à reforma protestante do

ocidente europeu. Estes movimentos reformistas frustrados variam desde o nominalismo,

a moderna devoção, ao humanismo, e ocorrem em conjunção com o crescente desagrado

perante a riqueza e o poder da elite clerical, sensibilizando a população para a corrupção

moral e financeira da igreja.

 

A Reforma Religiosa e Política na Inglaterra

O curso da reforma foi diferente na Inglaterra. Tinha havido desde há muito uma forte

corrente anti-clerical, tendo a Inglaterra já tido o movimento Lollard, que inspirou os Hussitas

na Boémia. Mas em cerca de 1520, no entanto, os Lollards não eram já uma força activa, ou

pelo menos um movimento de massas. O carácter diferente da Reforma Inglesa deve-se ao

facto de ter sido promovida inicialmente pelas necessidades políticas de Henrique VIII. Apesar

de Henrique ter sido um católico sincero, ele achou vantajoso quebrar com o Papado

e substituí-lo pela coro a inglesa. O decreto "Act of Supremacy" colocou

Henrique na liderança da

Igreja em 1534.

Entre 1553 e 1540, sob Thomas Cromwell, a política conhecida como a dissolução dos

mosteiros foi posta em prática. A veneração de santos, locais de peregrinação foram

atacados. Enormes extensões de terras e propriedades da Igreja passaram para as

mãos da coroa e posteriormente da nobreza e das classes altas. Os direitos adquiridos

foram uma força poderosa de apoio às dissoluções.

Houve muitos opositores da Reforma de Henrique, tais como Thomas More e

o Bispo John Fisher, que foram executados pela sua oposição. Mas também existiu

um partido crescente de Protestantes genuínos que estavam inspirados pelas doutrinas

então correntes no continente. Quando Henrique foi sucedido pelo seu filho

Edward VI em 1547, os protestantes viram-se em ascendente no governo. Uma

reforma mais radical foi imposta, incluindo a abolição da missa, destruição de imagens

e o fecho de capelas. Seguiu-se uma breve reacção católica durante o reinado

de Mary, 1553-1558. Um consenso começou a surgir durante o reinado de Elizabete I,

de onde podemos datar as origens do Anglicanismo. O compromisso foi difícil, e foi

capaz de evitar o extremo Calvinismo por um lado e o Arminianismo por outro, mas a

reforma foi relativamente bem sucedida, comparada com o estado caótico da França

contemporânea.

O sucesso da Contra-Reforma no continente e o crecimento de um partido puritano

dedicado a estender a reforma protestante polarizou a era Elizabetana, apesar de a

Inglaterra não ter tido até 1640 lutas religiosas comparáveis às dos seus vizinhos.

 

Protestantismo

No sentido estrito da palavra, o protestantismo designa o grupo de príncipes e cidades

imperiais que, na dieta de Speyer, em 1529, assinaram um protesto contra o Édito de Worms

que proibiu os ensinamentos Luteranos no Sacro Império Romano. A partir daí, a palavra

"protestante" em áreas de língua alemã ainda se refere às igrejas luteranas, enquanto que

a designação comum para todas as igrejas originadas da Reforma é Evangélico.

No sentido lato, a palavra designa todos os grupos religiosos cristãos de origem europeia

ocidental, que romperam com a Igreja Católica Romana como resultado da influência

de Martinho Lutero, fundador das igrejas luteranas, e de João Calvino, fundador do

movimento Calvinista. Um terceiro ramo principal da Reforma, que entrou em conflito tanto

com os Católicos como com os outros Protestantes é conhecido como Reforma Radical

ou Anabaptista. Lutero e Calvino distanciaram-se destes movimentos mais radicais,

que eles viram como uma semente de insubordinação social e fanatismo religioso.

Calvino fala de "fantasistas".

Alguns grupos cristãos ocidentais não-católicos são apelidados Protestantes,

ainda que os respectivos grupos não reconheçam quaisquer ligações a Lutero, Calvino

ou aos Anabaptistas

Origens do Protestantismo

Os protestantes situam normalmente a sua separação da igreja católica romana por volta

do ano 1500, chamando-lhe a reforma magistral porque propunha inicialmente numerosas

revisões radicais dos padrões da doutrina da Igreja Católica Romana (o chamado

magisterium). Os protestos irromperam repentinamente e em vários locais ao mesmo

tempo, de acordo com a região em que surgiu. De certa forma, esta explosão de protestos

pode ser explicada por dois eventos de dois séculos anteriores na Europa ocidental.

Efervescência na igreja e no império ocidental, que culminaram no Papado de

Avignon (1308 - 1378), e no Cisma papal (1378 - 1416), levaram a guerras entre príncipes,

revoltas entre os camponeses e a uma preocupação generalizada perante a corrupção

do sistema dos conventos.

Adicionalmente, o Renascimento humanista estimulava o efervescer da actividade

académica, sem precedentes durante a Idade Média, que pela sua natureza implica a busca

da liberdade de pensamento. Sérios debates teóricos decorriam agora nas Universidades

sobre a natureza da igreja e a fonte e extensão da autoridade papal, dos concílios e dos

príncipes. Uma das perspectivas novas e mais radicais teve origem em John Wyclif,

em Oxford e posteriormente Jan Hus na Universidade de Praga.

Dentro da igreja católica romana, este debate foi oficialmente concluído pelo

Concílio de Constança (1414 - 1418), que executou Jan Hus e baniu postumamente

Wyclif como um herético. No entanto, enquanto Constança confirmou e fortaleceu as

concepções medievais da igreja e do império, não poderia ter resolvido as tensões nacionais

ou as tensões teológicas que tinham surgido no século anterior. Entre outras coisa, o

concílio não conseguiu evitar o Cisma nem as Guerras Hussíticas da Boémia.

Em certa forma, o protesto iniciado por Martinho Lutero, um monge Agostinho e professor

na Universidade de Wittenberg, provocou a reabertura do debate sobre a venda de

indulgências. Teve um ímpeto de uma força renovada e irresistível do descontentamento

que tinha sido oprimido mas não resolvido.

Paralelamente aos eventos na Alemanha, um movimento teve início na Suíça sob a liderança

de Ulrich Zwingli. Estes dois movimentos rapidamente chegaram a acordo na maioria das

questões, tendo a imprensa, recentemente inventada, contribuído para a troca e propagação

de ideias. Algumas diferenças permaneceram, no entanto. Alguns seguidores de Zwingli

acreditaram que a reforma era por demasiada conservadora e tomaram posições mais

radicais, algumas das quais sobreviveram até aos dias de hoje pela mão dos Anabaptistas.

Notem que apesar de radicais eles são facções do protestantismo como há no catolicismo

no islanismo ou qualquer outra religião. Outros movimentos protestantes tiveram a sua

origem ao longo de linhas de pensamento misticista ou então humanista (ver:

Erasmo de Roterdão), por vezes cortando relações com Roma ou com os protestantes,

criando suas próprias igrejas estes deram origem aos evangélicos neo liberais que da

mesma forma contestavam e contestam em muito alguns dos princípios do protestantismo

e catolicismo, note-se ao afirmarmo contestar não significa negar os princípios e sim

adequá-los a um modo de pensamento geral ou local ou mesmo comunitário de acordo

com a abrangência de cada religião.

Após esta primeira etapa da Reforma Protestante, no seguimento da excomunhão de

Martinho Lutero e a condenação da Reforma pelo Papa, o trabalho e as obras de

João Calvino foram importantes no estabelecimento de um consenso básico entre os

vários grupos na Suíça, na Escócia (ver: John Knox), Hungria, Alemanha e noutros sítios.

A separação da Igreja de Inglaterra de Roma pela mão de Henrique VIII, começada

em 1529 e terminada em 1536, trouxe a Inglaterra para o lado protestante. No entanto,

as mudanças efectuadas na Inglaterra foram mais conservadoras do que noutras partes

da Europa e alternaram entre simpatias pelo lado tradicional ou pelo lado protestante

ao longo de séculos,procurando-se atingir um compromisso estável em termos social e religioso.

O Protestantismo Brasileiro

 

O Protestantismo chegou ao Brasil com viajantes e tentativas de colonização do Brasil

por huguenotes(nome dado aos Reformados franceses) e Reformados holandeses e

flamengos durante o período colonial. Esta tentativa não deixou frutos persistentes.

Com a vinda da família-real portuguesa ao Brasil e abertura dos portos a nações amigas,

através do Tratado de Comércio e Navegação comerciantes ingleses estabeleceram

a Igreja Anglicana, em 1811. Seguiram a implantação de Igrejas de Imigração:

Alemães trouxeram o Luteranismo em 1824, imigrantes Americanos as Igreja Batista

e Metodista. Mais tarde missionários fundaram as igrejas Congregacional e

a Presbiteriana, voltadas ao público brasileiro.

Em 1910 o Brasil receberia o Pentecostalismo, com a chegada

da Congregação Cristã no Brasil e da Assembléia de Deus.

Nos anos 1950 o pentecostalismo mudou-se com a influência de movimentos de

suposta cura divina, que geraram diferentes denominações tais como: Igreja Pentecostal

"O Brasil para Cristo".

Também desta época surgiram outras igrejas, que mantiveram muitas características

do protestantismo histórico mas adicionaram o fervor pentecostal, como exemplo, a

Igreja Presbiteriana Renovada.

A década de 1970 viu nascer o movimento neopentecostal, com igrejas que enfatizam

a prosperidade, como a Igreja Universal do Reino de Deus, influenciando inclusive a

Igreja Católica Romana com a Renovação Carismática Católica.

Recentemente cresceram as chamadas igrejas neopentecostais com foco nas classes

média e alta, com um discurso mais liberado quanto aos costumes e menos ênfase

nas manifestações pentecostais.

Século XVI

1501

O papa Alexandre VI promove grande orgia de sexo no Vaticano

1503

Alexandre VI é morto após ingerir arsênico destinado à outra pessoa   

1504

Bartolomeu de Las Casas inicia missão católica no México

1506

Inquisição Católica mata 3.000 judeus em Portugal

1512

V Concílio de Latrão

1513

Leão X assume papado aos 13 anos de idade

1513

É fundada a 1ª diocese na América, em Dárien, Panamá

1516

Início da Inquisição Católica em Cuba

1516

Carlos I (Espanha) é coroado imperador do Sacro Império pelo papa Leão X, vencendo na disputa Francisco I (França)

1517

Na Alemanha, Igreja Católica vende Indulgências para a construção da Basílica de São Pedro

1517

Lutero lança suas 95 teses contra a Igreja Católica

1521

O papa Leão X excomunga Lutero do catolicismo romano

1522

Lutero traduz e publica o 1º Novo Testamento da Bíblia em alemão

1522

Adriano VI (espanhol) assume papado e torna-se o último papa não italiano até João Paulo II

1523-25

Rebelião anabatista (protestante) de Münzer contra a aristocracia alemã, apoiada por Lutero

1525

O Antigo Testamento é dividido em versículos

1526

Igreja Católica persegue judeus na Hungria

1527

Soldados protestantes atacam Roma: 40.000 pessoas morrem na batalha

1528

Na Escócia, líder protestante Hamilton é queimado pela Inquisição

1529

A Dieta de Spira exige a tolerância aos católicos nos Estados luteranos, mas proíbe o culto luterano nos Estados católicos

1529

Príncipes alemães protestam contra medidas católicas que proíbem que cada Estado tenham sua própria religião

1530

Na Confissão de Augsburgo, Lutero lança os princípios básicos de sua doutrina

1530

A Reforma Luterana chega na Dinamarca

1531

Henrique VIII da Inglaterra é reconhecido como chefe supremo da igreja inglesa. Nasce o Anglicanismo

1531

Guerra entre católicos e protestantes na Suíça. Zwínglio (líder protestante) morre na batalha de Kappel

1531

O Tribunal do Santo Ofício (Inquisição) se estabelece em Portugal

1533

Instituição do bispado de Goa (Índia)

1534

Calvino, fugindo da Inquisição, vai da França para a Suíça

1534

Inácio de Loyola cria a Companhia de Jesus (Ordem dos Jesuítas)

1534

Henrique VIII decapita os católicos Thomas More e John Fisher

1536

Oficialmente tem início a Inquisição Católica em Portugal

1536

Calvino publica sua principal obra onde defende a teoria da predestinação

1536

A Reforma protestante chega à Noruega

1540

O papa Paulo II reconhece a criação da Ordem dos Jesuítas

1541

Calvino funda a Igreja Calvinista (futura Igreja Presbiteriana)

1541

O missionário católico Francisco Xavier vai para a Índia

1541-60

Calvino torna-se governante absoluto em Genebra, na Suíça, onde inicia perseguição 

1543

Parlamento escocês autoriza a leitura e a tradução da Bíblia

1543

Lutero publica a Bíblia completa em alemão

1545-63

Concílio de Trento

1546

Na Escócia, Inquisição queima Wishart. Protestantes vingam-se matando cardeal católico

1547-53

Missas são proibidas em território inglês

1549

O missionário católico Francisco Xavier vai para o Japão

1550

O papa Júlio III manda decapitar Arasão, bispo da Islândia

1551

Toda a Bíblia é dividida em versículos

1553

A rainha Maria Tudor restaura o catolicismo como religião oficial da Inglaterra

1553

O padre José de Anchieta chega ao Brasil

1553

3 bispos convocados pelo papa Júlio III, após investigação, concluem que o catolicismo está cheio de doutrinas anti-bíblicas

1555

É impressa a 1ª Bíblia dividida em versículos

1555

Paz de Augsburgo: nobreza luterana consegue que cada principado tenha a sua própria fé

1555

Inquisição Católica na Inglaterra: martírio dos líderes protestantes Latimer e Ridley

1557

1° culto protestante celebrado no Brasil

1558

Na Escócia, John Knox funda a Igreja Presbiteriana

1558

É escrita a 1ª Confissão de Fé das Américas por 4 missionários protestantes franceses, martirizados no Rio de Janeiro

1562

O Igreja Católica confirma o culto aos santos e declara que a missa é oferta propiciatória

1562

Massacre de Orange: inúmeros protestantes torturados e mortos pela Inquisição

1562

Lei concede liberdade religiosa aos hunguenotes da França, mas proíbe a construção de templos

1564

A Igreja Católica publica o 1° Index (relação dos livros proibidos)

1570-71

Esquadras calvinistas afundam navios que traziam missionários católicos ao Brasil

1572

Noite de São Bartolomeu: 10 mil protestantes são assassinatos em Paris pela Inquisição

1573

A Igreja Católica altera a Bíblia original com a canonicidade de 7 livros apócrifos

1578

O suposto "Santo Sudário" chega a catedral de São João Batista

1586

O papa Sixto V coloca obelisco pagão egípcio que encontra-se em frente à Basílica de São Pedro

1590

O papa Sixto V lança a "Vulgata Sixtina"

1591

Início da Inquisição Católica no Brasil

1592

O papa Clemente VIII fala que a Bíblia de Sixto V estava cheio de erros e lança a "Vulgata Clementina"

1592-95

O papa Clemente VIII falsifica a história alterando o nome da papisa Joana para Zacarias

1593

O Edito de Nantes concede liberdade de culto aos protestantes franceses

1596

Missionários católicos são perseguidos no Japão

1600

O cientista Giordano Bruno é queimado vivo em Roma pela Inquisição     

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